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PORTUGALINEGRADO

Portugalinegrado, nos confins da Europa, é um país onde coisas normais não acontecem com muita frequência. É um sítio cheio de história e, em cada canto, já aconteceu algo de sinistro e mau...

PORTUGALINEGRADO

Portugalinegrado, nos confins da Europa, é um país onde coisas normais não acontecem com muita frequência. É um sítio cheio de história e, em cada canto, já aconteceu algo de sinistro e mau...

UMA PONTE QUE NOS (DES)UNE

19
Set20

A vida corre devagar e os temas de conversa são invariavelmente os mesmos. Apesar da sabedoria popular, com várias ideias estapafúrdias e soluções imediatas, tudo parece ficar na mesma, sem qualquer mudança. Afinal é preciso esperar duas décadas para ver o Sporting campeão e, no mundo da moda, com tanto costureiro famoso, ocasionalmente aparecem as ceroulas do tempo dos nossos avós! A diferença entre o requinte e a parolice está na etiqueta do estilista. Contudo, continuam a ser ceroulas… A minha escrita faz parte deste ciclo e, sete anos depois, dou por mim a revisitar o tema que originou a primeira crónica humorística que escrevi: a Ponte Móvel de Matosinhos. Construída com os melhores materiais e vanguarda da engenharia, a malfadada estrutura consegue avariar mais vezes que eu a mudar a foto de perfil do Facebook! A explicação, pela entidade responsável, aponta para motivos técnicos e promete uma rigorosa investigação para apuramento das causas. Somando a falta de resposta e sucessivas avarias, será legítimo assumir que ainda investigam…

 

Nas redes sociais – epicentro de toda a indignação deste mundo – o povo de Matosinhos desespera com a angústia de ver cortado um ponto de ligação entre duas cidades, geridas pela mesma União de Freguesias, que provocará mais caos no trânsito. Um outro tema de embirração é o facto de, quando avaria, os tabuleiros ficarem abertos, ou seja, cortando a circulação automóvel e pedonal, mas permitindo a passagem dos barcos. Isto acontece por motivos de segurança e lógica. Não será fácil arranjar um caminho alternativo para os barcos… É possível encontrar, por entre vários comentários, os que defendem a construção de um túnel, os que querem uma nova ponte e inclusive os fanáticos pelo actual executivo municipal, que fazem questão de salientar o excelente trabalho desenvolvido. Talvez sabendo que, desta vez, a avaria ocorreu antes das eleições, algo inédito na cronologia da ponte… Na minha modesta opinião – e tendo em conta as soluções apresentadas – julgo que o melhor será tentar contactar Moisés. Segundo reza a história, teve um problema idêntico no Mar Vermelho…

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ENTRE SANTOS E PECADORES

14
Set20

As agências de viagem preparam os destaques para as férias dos mais endinheirados. O ano que começou (apesar do mês de Janeiro parecer infinito) marca uma nova tendência na oferta dos destinos. Depois da procura pelos locais de turismo exótico, histórico e mórbido surge uma nova demanda por focos de agitação local. E, como tal, os operadores turísticos querem enviar os seus clientes, com malas e bagagem, para o município mais falado na última semana: Loures! Os folhetos têm pouca informação sobre o local. Sabemos que há tradição no Carnaval e que está inserido num pequeno grupo de Câmaras Municipais que escaparam ao domínio dos rosinhas e setinhas. Graças ao jornalismo de investigação de um canal privado (agora, só menciono nomes quando começar a receber dinheiro por isso!), esta pacata localidade saltou para a ribalta! Defendendo os interesses do proletariado – e querendo contribuir para a redução do desemprego – a autarquia contratou, por ajuste directo, os serviços do genro do secretário-geral do PCP (Partido Comunista Português) por valores astronómicos. Desempregado há três anos, o funcionário sentiu-se como um vencedor da raspadinha pé-de-meia! Faz a limpeza e manutenção às paragens de autocarro e painéis de publicidade pela módica quantia de onze mil euros mensais. De acordo com a reportagem, num dos meses, o homem só conseguiu mudar oito lâmpadas e dois casquilhos. Provavelmente, por causa das condições climatéricas…

 

Enquanto se debatia a temática dos excessivos compadrios, influências e completa falta de vergonha e pudor, já outra notícia tomava posse, fazendo esquecer a contratação do electricista. No Panamá – e sabendo que é preciso justificar o trabalho deste artista da bricolage pública – o camarada Marcelo Rebelo Sousa conseguiu trazer para Lisboa e Loures as Jornadas Mundiais da Juventude. A Igreja Católica escolheu Portugalinegrado para acolher este evento em 2022. O Papa Francisco deverá marcar presença naquele que é o maior evento juvenil católico do mundo. Os dois autarcas estão mobilizados para trabalhar na requalificação dos terrenos. Todos aguardam o milagre da multiplicação dos euros (com desvios orçamentais) e, por isso, querem começar a trabalhar para que nada falhe! O mundo (e Deus) vai estar atento e muitos agoiram um iminente fracasso! O importante é reforçar as equipas de trabalho municipais com novas contratações e alguns salários chorudos! Os familiares do camarada Jerónimo de Sousa já fazem fila…

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O JOGO DA POLÍTICA

08
Set20

Permitam-me que, num exercício de viagem no tempo, regresse a 2014. Nessa altura, consegui exibir ao público o documentário “In Matosinhos” em três freguesias diferentes do concelho de Matosinhos. No final, houve uma pequena conversa, com os presentes, acerca dos temas abordados neste trabalho de cidadania. Curiosamente, as opiniões divergiram e, em poucos dias, rotularam-me com várias ideologias políticas sem saber bem como ou porquê! Num ápice, integraram-me na direita populista e na esquerda radical porque, segundo alguns “iluminados”, pus em causa as intenções dos governantes ou tive o descaramento de afirmar que o povo tem voz e, como tal, deve fazer-se ouvir! Escapei, por pouco, à acusação de ser terrorista… Lamentavelmente, esta mentalidade redutora mantém-se. Porém, mais activa (e confusa) fruto do aumento das forças políticas. As ideologias adaptaram-se aos tempos modernos e vontade do eleitorado, cada vez mais insatisfeito com o formato actual da democracia. A ocasião facilita a chegada de vários profetas das soluções milagrosas que – dizendo aquilo que queremos ouvir – prometem resolver todos os problemas!

 

Num registo para a posterioridade recordo que Agosto de 2020 regista um clima de ebulição política. Embora diferente de anos anteriores – graças à pandemia – temos oportunidade de ver no terreno vários dirigentes determinados em lutar, sabe-se lá porquê! O PCP (Partido Comunista Português) tem vindo a arranjar estratagemas e a encontrar lacunas nas indicações da DGS (Direcção Geral Saúde) para levar avante o seu festival de Verão, com milhares de pessoas. O CHEGA mobiliza centenas de pessoas para manifestações anti-racistas num país que, até há bem pouco tempo, era conhecido por ser pacífico e sossegado. O PSD (Partido Social Democrata), principal partido da oposição, vai preparando uma coligação com as novas vozes revoltadas que, aparentemente, culpam os indivíduos de raça negra (e os ciganos) por todo o mal que há na Terra. O PS (Partido Socialista) deixa-se estar sossegadinho e, como em qualquer manual para vencer a guerra, espera que os opositores acabem por dar um tiro na própria cabeça. O Presidente da República é o novo herói das “Marés Vivas” e, mesmo estando de férias (com as televisões por perto), faz salvamentos! Caros leitores, bem-vindos ao jogo da política…

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O ARBUSTO DAS PATACAS

06
Set20

Há dias choveu. Algo que, por cá, não acontece todos os dias. Nada de especial, apenas o suficiente para retirar a camada de pó (e algumas prendas indesejadas de alguns pássaros menos obstipados) das viaturas que, por força das circunstâncias, ficam estacionadas na rua. Porém, as míseras gotículas de água foram transformadas, por alguns serviços noticiosos, num autêntico dilúvio revelador da fúria da Natureza! Fosse um filme e seria a sequela da “Arca de Noé”. Perante as câmaras de vídeo, um destes agricultores da era moderna – sem qualquer resíduo de terra nas unhas e gosto preferencial por desempenho de tarefas no tractor, ignorando que a enxada nunca matou ninguém por capotamento – fez questão de demonstrar toda a sua tristeza e frustração. Alguns minutos de pluviosidade conseguiram, segundo ele, destruir milhares de maçãs. A destruição não foi completa porque conseguiu utilizar uma rede e impedir o extermínio. Talvez um guarda-chuva fizesse mais sentido, mas confesso que de agricultura pouco percebo…

 

O caricato, deste acto terrorífico, ficou bem patente quando o repórter de imagem resolveu alargar o plano e mostrar a propriedade. Perante os nossos olhos (de consumidores assustados com um novo aumento no preço das maçãs) foi possível observar três arbustos raquíticos, com meia dúzia de folhas. O agricultor – alheio a esta revelação mais bombástica que a saída do Messi do Barcelona – continuava as suas lamentações, num discurso bem ensaiado e eloquente, fazendo questão de insistir que apenas um subsídio conseguirá salvar o ano agrícola! Tal como os incêndios florestais, a destruição de culturas agrícolas por fenómenos meteorológicos acontece anualmente. É um flagelo sem solução à vista! A ausência de apólices de seguro é reveladora da desconfiança para com as seguradoras. Talvez porque, antes de pagar indemnizações, os peritos querem saber tudo! Irritam com tanta pergunta! Uma afronta! Até porque aquele pau com folhas, autêntico arbusto premiado das patacas, tem dado tantas alegrias! Enquanto isso, os nossos vizinhos preparam as suas furgonetas para colocar os seus frutos cá. Porque, aparentemente, em Espanha não chove…

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PENSAMENTOS SEM CHUMBO

03
Set20

Dou por mim, agarrado à pistola de abastecimento de combustível, a pensar que uma boa parte do salário miserável recebido desaparece sob a forma líquida. Considero tal gesto como um investimento para garantir, mais um mês, de deslocações para o trabalho com o objectivo de voltar a receber alguns trocos. Um ciclo vicioso que ataca centenas de condutores que, independentemente do estatuto social, visitam regularmente as estações de serviço. E, nesta crónica, prometo não implicar com os oportunistas que aproveitam a torneira da água para dar banho completo ao carro ou os que, num acto de rebeldia, resolvem fumar ao lado das botijas de gás. Algo que deveria ser premiado pela comunidade Nobel! Para aliviar o sofrimento provocado pela crueldade dos números (muitos euros, poucos litros) vou apreciando o panorama que me rodeia… Estacionado na bomba 2 está um monovolume. O condutor luta com todas as forças para conseguir fechar a porta da bagageira por causa de tanta tralha acumulada. No interior três crianças e uma mulher mal-arranjada que, num gesto de apoio e solidariedade, deixaram-no sozinho! Com aspecto cansado – talvez pelos gritos, cânticos ou poucas horas de sono – tenta cumprir mais uma tarefa imprescindível para o bom ambiente familiar. Pelas características da viatura (admitam, um monovolume é basicamente um ovo com rodas!), ou pelo rumo financeiro que a vida de casado implica, é notória a tristeza nos olhos daquele homem.

 

Num ápice, as atenções voltam-se para o rugido de motor da viatura que estacionou na bomba 4: um bólide desportivo, apenas com dois lugares, desenhado por alguém que não tem por hábito ir às compras. No interior uma mulher bem arranjada, estilo modelo das melhores passerelles. O centro das atenções: seja por ela ou pelo carro. A representação mais pura da vida de solteiro! Sem preocupações ou gritos incessantes da petizada. Escusado será dizer que o condutor do monovolume olhou para a tentação do bólide, mas não foi retribuído… Duas realidades distintas, observadas neste pequeno epicentro petrolífero, que marcam as diferenças da sociedade de Portugalinegrado. Contudo, tal como acontece com a morte, a mudança de realidade ocorre sem aviso prévio e os que deixaram o mundo dos “solteiros”, têm por hábito (mais cedo ou mais tarde) ter saudades do que deixaram para trás. Porém, depois da escolha feita, perde-se o ponto de retorno. É importante saber lidar com a decisão tomada e resistir à tentação permanente! Por esta altura, o meu abastecimento ficou concluído e sei que não me deixam terminar esta crónica sem que vos indique a que mundo pertenço. Caros leitores, tenho de admitir que olhei para o “maquinão” da bomba 4. O carro, claro...

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A INTELIGÊNCIA QUE JULGÁMOS TER

09
Ago20

Muitos descobriram, graças ao acidente ferroviário de Soure, que os comboios estão equipados com sistemas de segurança e, mesmo assim, registam-se falhas humanas. Os serviços noticiosos recorreram à sabedoria de alguns especialistas que, com calma e paciência, conseguiram elucidar os que sempre afirmaram que, para conduzir um veículo ferroviário, basta empurrar uma alavanca para trás e para a frente. Afinal existem normas e procedimentos que devem ser cumpridos à risca. O mesmo se passa com a sinistralidade automóvel: há condutores que ignoram (ou desconhecem) o código e principalmente a viatura que conduzem. Mais cedo ou mais tarde, a história acaba num cemitério, com muita gente vestida de preto. Enquanto escrevo esta crónica recebo indicação de outro acidente: uma carrinha de mercadorias foi colhida por um comboio depois de ignorar a sinalização da passagem de nível. Todas as acções de sensibilização são insuficientes para combater o flagelo da pressa e puro facilitismo. O complexo de superioridade (só acontece aos outros) é algo que está enraizado na nossa sociedade e, sinceramente, tanto me entristece…

 

Voltando ao tema da ferrovia – até porque, pela minha experiência, acho que percebo alguma coisa – preocupa-me o aumento do número de passageiros que, pura e simplesmente, não se esforça para perceber as regras do transporte que utilizam diariamente. O exemplo dos aviões: só quando estiver a cair é que vão pegar no folheto para saber o que fazer…. Ao passageiro apenas se exige que saiba comprar bilhete e, mesmo assim, alguns fazem questão de não aprender! É o fenómeno da nova corrente social dos pobrezinhos: não se pode corrigir ou chamar a atenção sob pena de levar uma bela reclamação! Resta a sapiência das redes sociais. É lá que se dissipam dúvidas (erradamente, escusado será dizer). Principalmente, quando os esclarecimentos são dados por indivíduos que pouco ou nada percebem, mas fazem questão de enganar os outros. Demasiada liberdade de expressão aliada a um grau de ignorância fortuito leva-me a admitir que, afinal, não temos a inteligência que julgámos ter…

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METAMORFOSE AO VOLANTE

20
Jul20

Os cientistas e engenheiros passaram décadas a desenvolver tecnologias de segurança acessíveis às massas. Mas aparece sempre um engraçadinho que aproveita todo esse esforço para um propósito diferente. Se não acreditam em mim, consultem as estatísticas sobre a sinistralidade rodoviária dos (brilhantes) condutores de Portugalinegrado. Qualquer pessoa, que se preze, amaldiçoa o dia em que inscreve o filho(a) numa Escola da Condução. Dinheiro deitado fora porque, basicamente, a malta quer a habilitação e está-se nas tintas para o Código da Estrada! O apelo pelas máquinas devoradoras de combustível é extremamente forte e, em breve, surgirá a metamorfose ao volante! Tal como os lobisomens em noite de lua cheia, estes novos condutores (maçaricos) vão adquirir péssimos hábitos esquecendo civismo e preocupação pela vida humana. Fenómeno agravado pela irreverência da tenra idade e excessivas facilidades no crédito bancário, que permitem adquirir viaturas com demasiados cavalos para alimentar…

 

Numa pesquisa efectuada – para tentar perceber quando começou este acto irreflectido de guerra civil na estrada – deparei-me com uma descoberta que salienta a importância das mulheres na história do automóvel. Em 1902, Mary Anderson inventou o limpa pára-brisas e em 1913, Florence Lawrence inventou o sinal de mudança de direcção: o vulgar pisca. Provavelmente, estas invenções passaram despercebidas à maioria dos ases do volante – alguns pensam que o automóvel foi inventado tal como está – e não consigo compreender que, um século depois, a ignorância ainda se manifeste: é comum ver pára-brisas com vestígios de mosquitos esparramados em 2005! Porque a água, disponibilizada nas estações de serviço, serve para lavar o carro gratuitamente e não para encher o reservatório! O pisca é outra invenção inútil porque poucos o utilizam! Talvez seja resultado da política de protecção de dados: ninguém precisa saber quando se vira! Há uma outra possibilidade (mais rebuscada) que pode explicar a ausência dos piscas: um terrível acto de ladroagem, que ataca viaturas para roubar as lâmpadas. E, pelo que se pode constatar, há demasiadas vítimas…

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UM BOM SAMARITANO

13
Jul20

As repórteres do serviço local noticioso – entenda-se as alcoviteiras do bairro – fizeram espalhar a notícia do infortúnio do camarada Alves. Figura típica local, já de idade avançada, que sofreu um ataque cardíaco fulminante. O pobre e envelhecido coração, apesar dos tremeliques, aguentou o impacto: o corpo sofreu apenas algumas mazelas ao nível da locomoção e fala. Cresci com a vitalidade deste indivíduo que agora se arrasta, esquecido e abandonado, numa casa demasiado grande. Os vizinhos comentam a crueldade dos familiares que nunca apareceram. Talvez um extracto bancário recheado conseguisse reacender os laços familiares… Senti que algo tinha de ser feito por este amigo de longa data e considerando a minha agenda ocupada – que envolve ressonar como um desalmado – arranjei tempo para retirar o velhote de casa. A falha do coração causou-lhe uma pequena paralisia na perna esquerda e, para além de mancar, anda mais devagar que o normal.

 

Porém, com bastante calma temos conseguido cumprir os objectivos! Num gesto de bom samaritano levei-o à Repartição de Finanças. Apesar da longa fila – com caras nada amistosas e muito impacientes – fomos atendidos de imediato e consegui resolver o meu problema. Ontem, aconteceu o mesmo no Centro de Saúde. Por entre um aglomerado de pessoas com nariz entupido e aspecto febril, nem tivemos de esperar! Na próxima semana tenho de passar nos Correios e já está tudo marcado para não ir sozinho! E ainda me acusam de ser oportunista por me fazer acompanhar por um idoso só para ter prioridade! Por vezes penso como seria se, neste país, houvesse menos intolerância e preconceito…

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UMA SOCIEDADE (BEM) CASMURRA

11
Jul20

Demorei mais tempo que o habitual para escrever esta crónica. Não que tenha necessidade de me justificar – até porque não sou concorrente do “Big Brother” – porém admito que se torna quase impossível conseguir pressionar as teclas do computador, quando tenho os dedos queimados com tanta solução alcoólica aplicada! Por estes dias as práticas de higiene estão em modo histérico e inclusive existem relatos preocupantes de ácaros e outros pequenos rastejantes que assistiram ao extermínio dos seus familiares. Sei que estar constantemente a abordar o tema do “Covid-19” parece um contra-senso: a malta anda bem mais limpinha, mas tem saudades de um passado bem mais javardo. Estou solidário com todos os que sofrem de mau hálito e usam máscara facial durante horas a fio: protege quem está em redor, é certo, mas é desumano para o próprio! A nossa sociedade tem passado por um processo de aprendizagem nunca antes visto. Isto não significa que tenham aprendido alguma coisa, mas as regras estão lá! O mesmo fenómeno do Código da Estrada: os que possuem a habilitação para conduzir fartam-se de ignorar as regras básicas e, pasmem-se, ainda conseguem insultar os poucos que insistem em cumprir o que aprenderam! Talvez por causa deste elevado grau de “chico-espertismo”, todos os anos, o número de mortes na estrada aumenta e a culpa é sempre dos outros…

 

Actualmente, tudo se rege por condicionamentos e novas normas de convivência. Nas praias ou nos centros comerciais (shopping’s) existem regras de circulação para prevenção da propagação do vírus. E – mérito seja dado pelo esforço – houve malta, de rabo para o ar, a colocar no soalho setinhas, marquinhas e pezinhos para controlar o fluxo dos clientes. Queria tanto escrever que a mensagem passou e que as pessoas perceberam a simbologia colada aos seus pés, mas não posso! A consciência deste nobre povo – que outrora descobriu novos mundos – deve estar perdida numa qualquer gaveta empoeirada e posso afirmar, sem qualquer sombra de dúvida, que é um orgulho verificar que a maioria não distingue o puxe do empurre e insistem em entrar pela saída! Atrevo-me a ir mais longe para afirmar que os seguranças nas lojas já não se preocupam com a gatunagem: passam maior parte do turno a educar as pessoas que, por negligência ou rebeldia, tentam ludibriar as regras! A mesma atitude rebelde que se verifica nas máscaras de protecção facial. A malta – tal como aconteceu com o açambarcamento do papel higiénico – agora julga que o vírus ataca os queixos! É normal e corriqueiro ver que a maior parte das gentes de Portugalinegrado tem a máscara arrumadinha na zona do queixo e pescoço, quando deveria estar a tapar o nariz e boca! Mais uma vez a massiva dose de civismo impele a maioria a distorcer os propósitos de uma simples indicação! Vou arriscar tudo e deixar um pequeno alerta: cuidado com o uso dos preservativos! Porque, tal como as máscaras, de nada servem se não forem colocados no sítio certo…

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O REGRESSO DO FAMALICÃO

09
Jul20

A época de futebol 2018/19 terminou no mês de Maio. Foi nesta altura que os santos receberam mais pedidos de intervenção, seja para vencer o campeonato ou para evitar a descida de divisão. Como a divindade não consegue agradar a todos, alguns adeptos ficaram desapontados e mudaram de religião. Porque a culpa é dos outros, nunca dos jogadores! Como adepto de futebol (não podia ser de outra forma!) e apreciador da zona norte de Portugalinegrado congratulo-me com a subida, à primeira divisão, do Gil Vicente, Paços de Ferreira e Famalicão. Uma palavra de solidariedade para o Feirense e desejo que, em breve, possa estar junto da elite do campeonato nacional de futebol. Os diversos serviços informativos deram especial destaque ao Famalicão. Clube que está afastado das luzes da ribalta desde 1994: um quarto de século! Os mais acérrimos fanáticos deste desporto recordam que foi um campeonato vencido pelo Benfica e que teve um início atribulado, com muita polémica e manchetes de jornal, quando os jogadores Paulo Sousa e Pacheco resolveram abandonar as águias e (atravessar a rua) para assinar pelo rival Sporting. Para a história do campeonato – e dos clubes – fica o dia 12 de Março…

 

O Famalicão deslocou-se ao Estádio da Luz e, perante uma assistência de 20.000 pessoas, sofreu uma derrota pesada: 8-0. Contudo, desse jogo imergiu um herói improvável que imortalizou o seu nome na história do futebol: o camarada Celestino da Silva. Tenham em mente que qualquer reputação – conquistada arduamente durante anos – pode ser destruída em poucos segundos graças a um lapso momentâneo. E será algo que nos persegue até ao final dos dias. Por exemplo, Roberto Baggio falhou um penalty que custou um campeonato do mundo à Itália; Zinedine Zidane agrediu à cabeçada outro jogador e, no dia em questão, o defesa central famalicense marcou dois golos no Estádio da Luz, mas… na própria baliza! Nesse ano jogou apenas três vezes. A sua prestação, ainda hoje, é recordada e ficou perpetuada na memória de quem esteve presente ou assistiu através da transmissão televisiva. Certamente, nos dias de hoje, teria visto o seu nome associado a um acto de corrupção para enriquecer a sua conta bancária. Os nervos estão à flor da pele e um dia mais azarado é confundido com falta de escrúpulos e dinheiro. Os anos passaram e desligou-se da actividade futebolística. Hoje, quando recorda o passado e o seu legado, ri-se disto tudo. É esse o espírito, carago!

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